Entrevista com Martim Cunha, um dos palestrantes do FORTE 2008, da FEBRATEL, em São Paulo, pode surpreender

Por João Carlos Fonseca - 21 de julho de 2008
Foto de Martim Vasques da Cunha

A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – promove, no dia 18 de agosto, em São Paulo, a edição 2008 do Fórum de Relações do Trabalho em Telecomunicações, com o tema "Liderança Empresarial do Brasil e os BRICS". Martim Vasques da Cunha é jornalista e escritor. Coordena o Departamento de Humanidades do Instituto Internacional de Ciências Sociais que dá apoio técnico-científico ao evento. Suas respostas justificam seu cargo de co-editor da Revista Dicta&Contradicta, uma publicação de idéias recém-lançada. Na qualidade de fórum, o evento promete um debate ativo sobre a contemporaneidade. Para se inscrever, gratuitamente, é só enviar um e-mail (forte2008@febratel.org.br) ou ligar para (21) 2541-4848.

A sigla BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa. A entrevista com o jornalista e escritor Martim Vasques da Cunha foi realizada por e-mail. As perguntas foram editadas para fins de dinamismo da edição, mas as respostas estão reproduzidas em sua íntegra, tal como nos foram enviadas pelo entrevistado.

FEBRATELEm que consiste a liderança empresarial? É a liderança dos empresários perante a sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas?

Martim Cunha – Creio que nem uma opção nem outra. Ambas são, na verdade, conseqüência da verdadeira liderança, que é a de governar e comandar a si mesmo. A liderança empresarial é apenas uma das inúmeras formas com a qual um líder se apresenta ao mundo. A principal forma como um líder se mostra é quando ele adquire o domínio completo sobre suas paixões, conhece cada um de seus limites e sabe que pode fracassar em qualquer momento – principalmente quando se trata de liderar a si mesmo.

FBTNo seu entender, a liderança empresarial é um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia) ou há diferenças de liderança entre eles?

MC – A liderança é um fenômeno que, em verdade, deveria ser incomum.

FBTPoderia justificar?

MC – Nem todos podem ser líderes. Existem aqueles que comandam e aqueles que obedecem. Quando há líderes em demasia, isso se torna um problema.

FBTUm problema?

MC – Sim. Significa que não há quem possa obedecê-los. Significa que só existem as massas.

FBTIsso é bom ou é ruim?

MC – Elas acreditam que são as únicas que podem governar. Aí temos o que Ortega y Gasset chama de "A Rebelião das Massas", tema da apresentação do Nivaldo Cordeiro.

FBTFale mais sobre isso.

MC – Mas, as massas precisam de líderes capacitados que possam guiá-las. Não importa se um país faz parte dos BRICS ou não. Se tivermos somente o "império das massas", teremos fatalmente a "ausência dos melhores". Sem esta minoria seleta, sempre ficaremos no patamar do emergente, que é muito próximo da emergência política, social, cultural e moral.

FBT Há diferença entre empresa pequena, média ou grande em relação ao tema do FORTE 2008 "Liderança Empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?”

MC – Não há diferença nenhuma. Exceto a escala de problemas que sempre tende a crescer. Uma empresa é sempre um reflexo da sociedade onde vivemos.

FBTComo assim?

MC – Se a sociedade estiver corrompida – isto é, se a ausência dos melhores chegou a tal ponto que os ideais com os quais ela vive se corromperam –, a cultura da empresa também será viciosa.

FBTQual seria a causa da cultura da empresa ser viciosa?

MC – Obviamente, a raiz disso tudo está no próprio líder, na própria liderança. Toda a degradação só pode existir caso haja alguém que a encabeça, como espelho desta corrupção. Aliás, este será o tema da minha apresentação no FORTE 2008 sobre "Hitler e os Alemães".

FBT Elabore o conceito ...

MC – No caso dos países do BRICS, tratam-se de sociedades onde os ideais estão sendo ameaçados, não só na questão política e econômica, mas, sobretudo, na questão moral. Portanto, é lógico que isso afete as próprias empresas e revele muito também de seus líderes.

FBT Há diferença entre "empresa multinacional" e "empresa nacional" para o tema do FORTE 2008 "Liderança Empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?”

MC – Aplico, aqui, o mesmo princípio de análise da resposta anterior, apenas com um adendo.

FBTQual?

MC – É imprescindível que o empresário conheça as idéias e a cultura do país de onde vem a empresa multinacional.

FBTE quanto à empresa nacional?

MC – Na empresa nacional, é necessário descobrir o que está por trás de suas ações como membro de sua sociedade. Ou seja, o líder deve saber a mentalidade do país onde nasceu, o que, de certa forma, implica que conheça muito sobre sua própria mentalidade.

FBTQual sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto em perspectiva histórica?

MB – Para mim, o sindicato é uma das amostras da "ausência dos melhores". Desde sua intenção e de sua fundação, nitidamente inspiradas por ideologias totalitárias, como o fascismo e o socialismo. Em um sindicato, seja em qual variação, não há líderes; há somente um aglomerado de "homens-massa". E é fundamental rever essa perspectiva.

FBTNo contexto dos BRICS (Brasil, Rússia, índia, China), como o Sr. percebe a presença e a atuação do Estado?

MB – Seja nos BRICS, seja no resto do mundo, o que ocorre é o que Ortega y Gasset chamou de "a estatização da vida". Vivemos hoje no perigo de termos a nossa vida, em todos os seus setores, mediada pelas exigências e caprichos do Estado.

FBT A sua visão dessa situação?

MB – Só que temos um problema: o Estado não nasce de geração espontânea. Ele surge de homens de carne e osso e que têm ideais a seguir. E estes ideais estão corrompidos porque eles corromperam uma visão do homem – e, portanto, o desumanizaram.

FBTUm visão do homem desumanizada?

MB – Sim. Quando se entra nessa desumanização, pensamos somente em termos estatais – e assim assassinamos o que há de incerteza na nossa vida e, portanto, matamos os líderes em potenciais, os únicos que podem lidar com o perigo e o risco.

FBTOs BRICS competem ou se aliam no cenário internacional?

MB – Aparentemente, eles estão aliados, no famoso princípio que Raymond Aron descreveu em seu "Paz e Guerra entre as Nações". Mas, no fundo, creio que há uma competição tácita, não na busca de excelência e sim na corrida para ver quem aperta o botão do juízo final em primeiro lugar.

FBTO "B" dos BRICS tem vocação natural para basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve investir em inovação?

MB – Creio que essa pergunta está baseada em esquemas históricos e administrativos já datados.

FBTHá diferentes tipos de liderança empresarial para ambos os casos?

MB – O fato essencial é este: um líder sempre deve harmonizar entre inovação e tradição, independente do país onde se trabalha e independente do período histórico em que se vive.

FBTO que deve saber um líder?

MB – Ele deve ter um sólido estudo sobre humanidades, com conhecimentos dos clássicos da civilização ocidental, das diferentes culturas, línguas – e, sobretudo, um conhecimento da alma humana, que só a apreciação das grandes obras de arte podem dar. 

FBTO Brasil já foi apelidado de um "BRIC lento". O Sr. concorda ou discorda?

MB – Lento é apelido. O Brasil é um país que anda feito uma tartaruga; claro que podemos afirmar que, economicamente, melhoramos muito etc. e tal.

FBTIsso é suficiente?

MB – Mas e culturalmente? E moralmente? E, vamos à raiz das coisas, espiritualmente? Neste três pontos, o Brasil é de uma contribuição quase nula.

FBT Quase?

MB – Digo "quase" porque tivemos exceções, como um Machado de Assis, um padre Vieira, um Mário Ferreira dos Santos.

FBT E atualmente?

MB – Atualmente, parece que o Brasil fez a opção preferencial pelo desastre. Um verdadeiro líder deve ter a honestidade consigo mesmo para admitir que, se quiser manter a sanidade da elite empresarial – um dos exemplos da "minoria seleta" –, ele deve reconhecer que as coisas no Brasil não estão bonitas como parecem.

FBT  Sua palestra no FORTE 2008 tratará de Eric Voegelin. Quais os pensadores brasileiros que a ele se equivalem?

MB – Eu citaria Bruno Tolentino, o grande poeta-pensador falecido há um ano; e, em menor escala, Luiz Felipe Pondé, um scholar que faz uma crítica contundente das raízes dos nossos tempos modernos.

FBT Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

MB  Não, muito obrigado.

© Febratel 2007-2010. Todos os direitos reservados. Desenvolvido e mantido por Infomarket.