Entrevista com Martim Cunha, um dos palestrantes do FORTE 2008, da FEBRATEL, em São Paulo, pode surpreender

A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – promove, no dia 18 de agosto, em São Paulo, a edição 2008 do Fórum de Relações do Trabalho em Telecomunicações, com o tema "Liderança Empresarial do Brasil e os BRICS". Martim Vasques da Cunha é jornalista e escritor. Coordena o Departamento de Humanidades do Instituto Internacional de Ciências Sociais que dá apoio técnico-científico ao evento. Suas respostas justificam seu cargo de co-editor da Revista Dicta&Contradicta, uma publicação de idéias recém-lançada. Na qualidade de fórum, o evento promete um debate ativo sobre a contemporaneidade. Para se inscrever, gratuitamente, é só enviar um e-mail (forte2008@febratel.org.br) ou ligar para (21) 2541-4848.
A sigla BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa. A entrevista com o jornalista e escritor Martim Vasques da Cunha foi realizada por e-mail. As perguntas foram editadas para fins de dinamismo da edição, mas as respostas estão reproduzidas em sua íntegra, tal como nos foram enviadas pelo entrevistado.
FEBRATEL – Em que consiste a liderança empresarial? É a liderança dos empresários perante a sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas?
Martim Cunha – Creio que nem uma opção nem outra. Ambas são, na verdade, conseqüência da verdadeira liderança, que é a de governar e comandar a si mesmo. A liderança empresarial é apenas uma das inúmeras formas com a qual um líder se apresenta ao mundo. A principal forma como um líder se mostra é quando ele adquire o domínio completo sobre suas paixões, conhece cada um de seus limites e sabe que pode fracassar em qualquer momento – principalmente quando se trata de liderar a si mesmo.
FBT – No seu entender, a liderança empresarial é um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia) ou há diferenças de liderança entre eles?
MC – A liderança é um fenômeno que, em verdade, deveria ser incomum.
FBT – Poderia justificar?
MC – Nem todos podem ser líderes. Existem aqueles que comandam e aqueles que obedecem. Quando há líderes em demasia, isso se torna um problema.
FBT – Um problema?
MC – Sim. Significa que não há quem possa obedecê-los. Significa que só existem as massas.
FBT – Isso é bom ou é ruim?
MC – Elas acreditam que são as únicas que podem governar. Aí temos o que Ortega y Gasset chama de "A Rebelião das Massas", tema da apresentação do Nivaldo Cordeiro.
FBT – Fale mais sobre isso.
MC – Mas, as massas precisam de líderes capacitados que possam guiá-las. Não importa se um país faz parte dos BRICS ou não. Se tivermos somente o "império das massas", teremos fatalmente a "ausência dos melhores". Sem esta minoria seleta, sempre ficaremos no patamar do emergente, que é muito próximo da emergência política, social, cultural e moral.
FBT – Há diferença entre empresa pequena, média ou grande em relação ao tema do FORTE 2008 "Liderança Empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?”
MC – Não há diferença nenhuma. Exceto a escala de problemas que sempre tende a crescer. Uma empresa é sempre um reflexo da sociedade onde vivemos.
FBT – Como assim?
MC – Se a sociedade estiver corrompida – isto é, se a ausência dos melhores chegou a tal ponto que os ideais com os quais ela vive se corromperam –, a cultura da empresa também será viciosa.
FBT – Qual seria a causa da cultura da empresa ser viciosa?
MC – Obviamente, a raiz disso tudo está no próprio líder, na própria liderança. Toda a degradação só pode existir caso haja alguém que a encabeça, como espelho desta corrupção. Aliás, este será o tema da minha apresentação no FORTE 2008 sobre "Hitler e os Alemães".
FBT – Elabore o conceito ...
MC – No caso dos países do BRICS, tratam-se de sociedades onde os ideais estão sendo ameaçados, não só na questão política e econômica, mas, sobretudo, na questão moral. Portanto, é lógico que isso afete as próprias empresas e revele muito também de seus líderes.
FBT – Há diferença entre "empresa multinacional" e "empresa nacional" para o tema do FORTE 2008 "Liderança Empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?”
MC – Aplico, aqui, o mesmo princípio de análise da resposta anterior, apenas com um adendo.
FBT – Qual?
MC – É imprescindível que o empresário conheça as idéias e a cultura do país de onde vem a empresa multinacional.
FBT – E quanto à empresa nacional?
MC – Na empresa nacional, é necessário descobrir o que está por trás de suas ações como membro de sua sociedade. Ou seja, o líder deve saber a mentalidade do país onde nasceu, o que, de certa forma, implica que conheça muito sobre sua própria mentalidade.
FBT – Qual sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto em perspectiva histórica?
MB – Para mim, o sindicato é uma das amostras da "ausência dos melhores". Desde sua intenção e de sua fundação, nitidamente inspiradas por ideologias totalitárias, como o fascismo e o socialismo. Em um sindicato, seja em qual variação, não há líderes; há somente um aglomerado de "homens-massa". E é fundamental rever essa perspectiva.
FBT – No contexto dos BRICS (Brasil, Rússia, índia, China), como o Sr. percebe a presença e a atuação do Estado?
MB – Seja nos BRICS, seja no resto do mundo, o que ocorre é o que Ortega y Gasset chamou de "a estatização da vida". Vivemos hoje no perigo de termos a nossa vida, em todos os seus setores, mediada pelas exigências e caprichos do Estado.
FBT – A sua visão dessa situação?
MB – Só que temos um problema: o Estado não nasce de geração espontânea. Ele surge de homens de carne e osso e que têm ideais a seguir. E estes ideais estão corrompidos porque eles corromperam uma visão do homem – e, portanto, o desumanizaram.
FBT – Um visão do homem desumanizada?
MB – Sim. Quando se entra nessa desumanização, pensamos somente em termos estatais – e assim assassinamos o que há de incerteza na nossa vida e, portanto, matamos os líderes em potenciais, os únicos que podem lidar com o perigo e o risco.
FBT – Os BRICS competem ou se aliam no cenário internacional?
MB – Aparentemente, eles estão aliados, no famoso princípio que Raymond Aron descreveu em seu "Paz e Guerra entre as Nações". Mas, no fundo, creio que há uma competição tácita, não na busca de excelência e sim na corrida para ver quem aperta o botão do juízo final em primeiro lugar.
FBT – O "B" dos BRICS tem vocação natural para basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve investir em inovação?
MB – Creio que essa pergunta está baseada em esquemas históricos e administrativos já datados.
FBT – Há diferentes tipos de liderança empresarial para ambos os casos?
MB – O fato essencial é este: um líder sempre deve harmonizar entre inovação e tradição, independente do país onde se trabalha e independente do período histórico em que se vive.
FBT – O que deve saber um líder?
MB – Ele deve ter um sólido estudo sobre humanidades, com conhecimentos dos clássicos da civilização ocidental, das diferentes culturas, línguas – e, sobretudo, um conhecimento da alma humana, que só a apreciação das grandes obras de arte podem dar.
FBT – O Brasil já foi apelidado de um "BRIC lento". O Sr. concorda ou discorda?
MB – Lento é apelido. O Brasil é um país que anda feito uma tartaruga; claro que podemos afirmar que, economicamente, melhoramos muito etc. e tal.
FBT – Isso é suficiente?
MB – Mas e culturalmente? E moralmente? E, vamos à raiz das coisas, espiritualmente? Neste três pontos, o Brasil é de uma contribuição quase nula.
FBT – Quase?
MB – Digo "quase" porque tivemos exceções, como um Machado de Assis, um padre Vieira, um Mário Ferreira dos Santos.
FBT – E atualmente?
MB – Atualmente, parece que o Brasil fez a opção preferencial pelo desastre. Um verdadeiro líder deve ter a honestidade consigo mesmo para admitir que, se quiser manter a sanidade da elite empresarial – um dos exemplos da "minoria seleta" –, ele deve reconhecer que as coisas no Brasil não estão bonitas como parecem.
FBT – Sua palestra no FORTE 2008 tratará de Eric Voegelin. Quais os pensadores brasileiros que a ele se equivalem?
MB – Eu citaria Bruno Tolentino, o grande poeta-pensador falecido há um ano; e, em menor escala, Luiz Felipe Pondé, um scholar que faz uma crítica contundente das raízes dos nossos tempos modernos.
FBT – Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
MB – Não, muito obrigado.
