Fórum de Relações do Trabalho, da FEBRATEL, debate o complexo tema da liderança – I

O Fórum de Relações do Trabalho em Telecomunicações – Forte 2008 –, evento anual da Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – debateu, em 18 de agosto último, no Hotel Grand Hyatt, situado junto à nova e espetacular ponte estaiada da paulicéia, símbolo de liderança no business, o tema "Liderança Empresarial para o Brasil no Contexto dos BRICS". O roteiro técnico ficou a cargo do Instituto Internacional de Ciências Sociais – iiCS –, que atua em pós-graduação lato sensu –; e do Instituto ProGescal de Consultoria. O encontro foi fértil em debates.
O Fórum de Relações do Trabalho 2008 contou com uma centena de participantes, incluindo diretores da FEBRATEL, dos sete sindicatos a ela filiados e de representantes do mundo empresarial e de talentos humanos. O evento, centrado em dois painéis, foi fértil em seus debates, inclusive com a participação da platéia, mostrando a fecundidade de idéias gerada por uma variada participação.
Com abarcante liberdade de expressão e justificando o nome de fórum, uma variedade de tópicos foi abordada durante o evento, desde os mais teóricos – e até filosóficos – aos mais práticos e concretos. Foram trabalhados o sistema produtivo, a conjuntura e a governança para que o Brasil lidere, ou pelo menos brilhe, no contexto de Rússia, Índia, China e South Africa. Ou seja, dos países emergentes formadores do acrônimo BRICS. Não se esconderam os temas polêmicos e os dizeres contundentes.
Abriu e fechou o evento o presidente da FEBRATEL, empresário Luiz Alberto Garcia. Marcou a posição da entidade como fórum. Manifestou que, embora críticas possam ser feitas sobre o desempenho dos governantes, elas devem ser limitadas ao fato de que os mesmos foram eleitoralmente escolhidos pela vontade da maioria da população. E com sabedoria mineira e de líder, ao encerrar o FORTE 2008, tornou relativos os posicionamentos extremos, lembrando que "é preciso tomar cuidado, pois na vida nem tudo é ruim ou nem tudo é bom".
Foram palestrantes e debatedores o advogado Cicero Domingos Penha, diretor da FEBRATEL e de Talentos Humanos do Grupo Algar; o empresário Gustavo Ene, diretor da Federação de Comércio e Serviços do Rio Grande do Sul; o administrador João Lins, sócio da consultoria Price Waterhouse&Coopers; o administrador Magnus Ribas Apostólico, superintendente de Relações do Trabalho da Fenaban; e o engenheiro Marcelo Marques, pró-diretor do Inatel.
A lista se completa com a juíza do trabalho Marli Nogueira, de Brasília; o jornalista Martim Vasques da Cunha, do iiCS; o executivo José Nivaldo Cordeiro, economista pela FGV; o economista Odemiro Fonseca, do Conselho Executivo da Wharton School; o economista e professor universitário Ubiratan Iorio, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Uerj –; e o executivo Sílvio Genesini, presidente da Oracle do Brasil.
Duas vertentes
O tema do evento, “Liderança para o Brasil no Contexto dos BRICS” – pouco, porém, se falou da Rússia, Índia, China e África do Sul – foi explorado em duas vertentes. Uma se ateve ao campo pragmático e empresarial. Tratou da organização do trabalho nas empresas, da necessidade de formar talentos humanos e da contribuição do empresariado no terreno da educação.
Outra focou a liderança em seu conceito lato sensu. Discutiu a posição do empresariado frente ao Estado. Fez apelo a exemplos históricos europeus do século XX, bem como a conceitos sociológicos e de ciência política, como homem-massa e realidade. Ficou implícita a advertência da possível recorrência, nos tempos atuais, de fenômenos idênticos aos que originaram o nazismo e a Guerra Civil espanhola.
Tópicos para pensar
O evento foi rico em pronunciamentos, observações, críticas e debates. Reunimos, aqui, alguns deles sob forma de tópicos, independentemente de cronologia e de quem os citou. Conceitos podem até ser conflitantes. São tópicos, classificados em ordem alfabética, para ler e pensar. É um serviço prestado à comunidade de leitores. Os tópicos não representam necessariamente o ponto de vista institucional da FEBRATEL e são apenas opiniões expressas num fórum aberto, sem prévia censura. Sua leitura pode ser instigante e não deixará ninguém indiferente.
Sobre BRICS. A China está demonstrando sair do grupo dos emergentes rumo a uma grande potência. A sigla BRICS vai perder o C. A China, em dez anos, vai mudar de importador para exportador de cérebros (leia-se know-how). A China tem grandes universidades. Não sabendo que era impossível, foi lá e fez. A Índia forma um milhão de engenheiros/ano e 50 mil PhDs. O Brasil, em quatro anos, pulou de 49º para 43º lugar em competitividade mundial. Foi o único dos BRICS a fazê-lo. China (17º) e Índia (29º) perderam duas posições; África do Sul (53º), três; e Rússia (47º), quatro.
O Brasil de hoje melhorou em relação aos últimos anos. Coisas positivas aconteceram. Temos um capitalismo nascente com empresas brasileiras, abundância de capital e aproveitamento do mercado de commodities. Empresas brasileiras privadas adquirem empresas no exterior. O Brasil que vem por aí fica mais dependente da conjuntura internacional e quer se diversificar, além das commodities. Temos condições de competir na arena internacional da indústria do conteúdo, do software e das telecomunicações.
Para ganhar nos BRICS, é preciso ter liderança. É preciso pensar o Brasil e como agir sobre as políticas públicas. O Brasil precisa fazer o seu dever de casa. O País cresce porque o mundo cresce. Não tem infra-estrutura moral ou empresarial para crescer.
Sobre Conjuntura. O Fórum de São Paulo, desde 1990, reúne lideranças da esquerda da latina-americana. Liberdade é o poder de escolha. A democracia, em si, não é ruim, só quando é desvirtuada. O Brasil não possui verdadeiro partido de direita. A escolha permanece entre o pitbull ou o poodle. Na prática, nosso federalismo é centralista. A soberania nacional sofre ameaças, internas e externas. O valor da tradição precisa ser resgatado.
O Movimento dos Sem-Terra é financiado por ONGs. Em relação à ocupação do território, estima-se que, de 2002 a 2007, aconteceram 4 mil invasões de fazendas. As minorias indígenas (0,25% da população) ganharam 107 milhões de hectares. Tribos são organizadas em nações. Há o fantasma dos Ianomamis, numa região rica em Urânio (entre Venezuela e Brasil), formarem um outro país. O decreto 4887/03 cria os critérios da territorialidade dos quilombolas.
O Judiciário está sendo politizado. Os cidadãos das grandes cidades vivem em guetos, os fazendeiros temem a invasão de suas terras, as favelas – denominadas comunidades – têm o governo paralelo dos traficantes e das milícias.
A Sociedade elege seus governantes para se pautar por um contrato social, representado pela Carta Magna. Os males da civilização é a falta de valores e não o Estado em si. A ameaça está na base das massas, na sua miséria e deseducação. Dados da FGV e do IBGE mostram que 34% da população ainda estão abaixo da linha da miséria. Em cinco anos, 11% da população ganharam o status da inclusão social.
O que tira o indivíduo da miséria é o trabalho e a geração de renda. Mais importante que as pessoas são as propostas. Qual seria a proposta velada do atual Governo?
Sobre Economia. Não existe capitalismo no Brasil. A nossa economia é burocratizada e mercantilista. Uma empresa gasta 2060 horas/ano no Brasil com burocracia, contra apenas 105 horas anuais na Alemanha. Aqui são 110 dias para abrir um empreendimento e dez anos para encerrá-lo. A Legislação Trabalhista é anacrônica. Estamos na 120ª posição no ranking mundial do quesito "facilidade de realizar negócios".
Existem duas falácias na apreciação de nosso fenômeno econômico. "João é pobre porque André é rico". Na prática, a repetição dessa falácia acaba se transformando em verdade. Outro mito é que "os pobres unidos vão chegar a ser ricos". Na prática, isto se reflete na união do Brasil com Venezuela, Equador e Paraguai.
A carga tributária no Brasil é de 39.9% do PIB. São 147 dias de trabalho de graça para o Governo. A carga tributária legal chega a 65% e 70% do PIB. Há um excesso de empresas estatais.
A economia foi movimentada pelo motor das commodities, com câmbio caindo, expansão do crédito e do consumo. Cada um, porém, tem que ganhar com o suor de seu rosto. O crescimento econômico tem que ser real, dependendo da capacidade produtiva e do crescimento da demanda.
No Governo, ocorre um descompasso permanente. O regime monetário fica com o Banco Central, que regula a taxa de juros; e o regime fiscal com o Ministério da Fazenda, que vê a aplicação dos recursos. Só há quatro maneiras de se equilibrar as contas: aumentando os tributos, as dívidas externa e dívida interna ou emitindo moeda. O Brasil só vai crescer quando se eleger um governo que acabe com esse cabo de guerra.
Sobre Empresariado.A participação empresarial é essencial para o futuro do País. Para que o mal prevaleça, basta que os bons nada façam. Associações e FEBRATEL podem ser um grande palanque para a Sociedade da Informação. Ocorre falta de segurança jurídica para os empreendimentos.
A liderança empresarial precisa se fazer presente junto aos parlamentares, à Casa Civil, aos ministérios e às pessoas que decidem e ir a público. É resistir para insistir. O MST e a CUT estão sempre ativos no Congresso Nacional. A grande empresa e a PME são bem diferentes, assim como as empresas de ponta e as empresas tradicionais.
A responsabilidade social é obrigação das empresas. O empresariado, em seu dia a dia, convive com os sindicatos trabalhistas, as centrais sindicais, os juízes e os fiscais trabalhistas e a Anamatra. Esta reúne juízes do trabalho e recebe denúncias de quem se sente lesado por desrespeito à Legislação Trabalhista.
É preciso separar o empresário competitivo daquele que quer ficar rico com o dinheiro de impostos. O empresariado evita ser um formador de opinião, um engano que comete.
Sobre Ensino. Há o agigantamento do poder público. O sistema educacional não forma líderes. Tem deficiências no ensino na área de Exatas e de Humanidades. Pende ideologicamente para a esquerda. Não promove a meritocracia, não forma empreendedores e não acredita na economia de mercado. Há a mentalidade do querer emprego público.
As famílias precisam dar valor ao ensino de qualidade para seus filhos. Somos uma sociedade de mobilidade social limitada. As sociedades de acesso aberto ao empreendedorismo prosperam.
A grande maioria se gradua naquilo do que não gosta. A Academia precisa ir para o divã. Muitos alunos acreditam que se você for estudioso vai vencer. O ambiente institucional do ensino faz diferença.
Não se pode ter computador quando giz e quadro-negro mal existem e a professora é pessimamente remunerada. O computador é uma nova ferramente para o ensino, vai dispensar o giz e a recomendação de não apagar o quadro negro. A verdadeira inovação é a que dura para sempre, como o alfabeto e o sistema de numeração.
O conhecimento é informação processada, mas a atitude é que faz a grande diferença. O Brasil tem muito analfabeto funcional que não sabe interpretar o que apenas lê.
Aluno fica na escola porque não tem o que comer em casa. Nem só de pão vive o homem. A educação pode ser privatizada. É preciso mudar a cabeça do professor e da militância para formar líderes. Escola pode dar lucro. A BR Educacional é um fundo com R$ 1 bilhão para comprar escolas e consolidá-las. A idéia é formar pessoas que acreditem em competição e no mercado com aulas aqui e no exterior.
