Prevista alocução da juíza do Trabalho Marli Nogueira na abertura do FORTE 2008, da FEBRATEL, em São Paulo
A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – promove, no dia 18 de agosto, em São Paulo, a edição 2008 do Fórum de Relações do Trabalho em Telecomunicações, com o tema "Liderança Empresarial do Brasil no Contexto dos BRICS". Está prevista a alocução da juíza do Trabalho Marli Lopes da Costa de Góes Nogueira na abertura dos trabalhos. Aqui, uma interessante entrevista, com firmes posicionamentos, que a representante do Poder Judiciário concedeu à FEBRATEL sobre a proposição do evento.
Marli Lopes da Costa de Góes Nogueira é juíza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região, onde ocupa o cargo de juíza-presidente da 2ª Junta de Conciliação e Julgamento, em Brasília (DF). Como articulista, publicou no Mídia sem Máscara, em 2006, o artigo "A Democracia do Senador", onde tece considerações relativas ao senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), líder da oposição ao Governo Lula. Dentre outras atividades curriculares, foi diplomada pela Escola Superior de Guerra (ESG) na Turma de 2000, Brasil 500 anos, no Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.
A entrevista foi realizada por intermédio de e-mail, com pauta de perguntas pré-enviadas pela FEBRATEL e, ao final, com questionamento livre.
A sigla BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa.
A seguir, a entrevista com a juíza Marli Nogueira:
FEBRATEL – Em que consiste a liderança empresarial? É a liderança dos empresários perante a sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas?
Marli Nogueira – A liderança é um dom individual que pode se revelar tanto pelos empresários perante a sociedade quanto por algumas pessoas dentro das empresas. Cabe ao empresário saber aproveitar esse dom para colocá-lo a serviço do empreendimento, respeitadas as normas legais.
FBT – A liderança empresarial é um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia) ou há diferenças de lideranças entre eles?
MN – Entendo que há, sim, diferenças.
FBT – Quais seriam elas?
MN – O espírito de liderança somente se desenvolve satisfatoriamente em sociedades livres e competitivas, onde impera a meritocracia. Mas, em sociedades onde há excesso de regulamentação, com pouco espaço para o empreendedorismo e o desenvolvimento das potencialidades individuais, esse espírito acaba sendo minado, dando lugar a uma busca desenfreada por cargos públicos, como ocorre no Brasil.
FBT – Se citarmos empresas pequena, média ou grande, há alguma diferença entre elas para o tema do FORTE 2008, "Liderança Empresarial do Brasil no Contexto dos BRICS"?
MN – Como eu já disse antes, a liderança é um atributo individual e, como tal, tanto pode ser usada para o bem como para o mal
FBT – Quais são as nações vencedoras?
MN – São as nações que respeitam os contratos. Que possuem legislações menos draconioanas e menos numerosas. Que mantêm uma linha mais homogênea de julgamentos judiciais. Que valorizam a iniciativa privada e o espírito de liderança. Tais nações, certamente, têm maior possibilidade de progresso do que aquelas que primam pela proteção a determinadas categorias (pobres, empregados, homossexuais, mulheres, negros etc.), que pendem para a pletora legiferante, que possuem um judiciário altamente personalista e ideologizado, que se caracterizam pela estatolatria e que colocam as categorias acima dos indivíduos.
FBT – Se citarmos empresa multinacional e empresa nacional, há diferença entre elas para o tema do FORTE 2008 "Liderança Empresarial do Brasil no Contexto dos BRICS"?
MN – A diferença não está na liderança, em si, como atributo individual, que é, e portanto, independente da nacionalidade do líder.
FBT – Onde residiria a diferença?
MN – A grande diferença, a meu ver, reside na possibilidade de seu desenvolvimento ocorrer em função do maior ou menor grau de liberdade que determinado país oferece. E para que o espírito de liderança se desenvolva a contendo, levando progresso não apenas para as empresas, mas para a sociedade em que elas se encontram. Essa liberdade há de ser real e não meramente aparente.
O sistema sindical.
FBT – Qual a sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto em perspectiva histórica?
MN – O sistema sindical brasileiro é visivelmente anacrônico, além de envolto em alto grau de corrupção, segundo volta e meia se noticia na mídia.
FBT – Seus comentários?
MN – Chega a ser espantoso ver a enorme quantidade de benefícios a que muitas empresas se sujeitam, ao celebrarem as chamadas Convenções Coletivas de Trabalho, sendo pequeníssima a contrapartida oferecida pelos empregados. Além do mais, como de longa data o Brasil apresenta falhas abissais no sistema educacional, tornam-se cada vez menos numerosos os trabalhadores capacitados para as diversas funções de que o País necessita, sem que os sindicatos desempenhem um papel significativo para reverter essa situação.
FBT – O que seriam sindicatos fortes?
MN – Sindicatos fortes são sindicatos verdadeiramente autônomos, sem interferência do Estado, nem mesmo do Poder Judiciário. Mas, infelizmente, não é o que se vê por aqui, já que temos uma forte tendência para o protecionismo, o assistencialismo e o populismo, todos esses "ismos" de efeitos extremamente nefastos para as empresas, para os empregados e para o próprio País.
A presença do Estado.
FBT – No contexto dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China), como a Sra. percebe a presença e a atuação do Estado?
MN – A presença do Estado, pelo menos no Brasil, chega a ser sufocante. Temos um excesso de regulamentações e de tributos, além de uma legislação trabalhista extremamente protecionista, que está a exigir reformas urgentes para que possamos nos desenvolver realmente.
FBT – Uma reforma?
MN – Sim. Precisamos mudar essa mentalidade de que o empregado é um "coitadinho" e o patrão, um "vilão".
FBT – Seria um problema de ordem política?
MN – O problema é que a maioria dos políticos só se interessa por votos e não pelos destinos do País e, por isso, adota um discurso populista, para agradar às massas, a fim de garantir seu lugar em uma cadeira qualquer da máquina pública. Enquanto isso, vamos ficando sem as reformas necessárias e, pois, cada vez mais longe dos países desenvolvidos. E quanto maior esse distanciamento, mais difícil será transpô-lo.
O cenário internacional.
FBT – Os BRICS competem ou se aliam no cenário internacional?
MN – Penso que eles mais competem do que se aliam. Nunca acreditei muito em alianças desinteressadas.
FBT – Que tipo de aliança veria entre os BRICS?
MN – Ao contrário, creio que toda e qualquer aliança entre os componentes dos BRICS (como de qualquer outra organização) somente se verifica quando os aliados nela enxergam vantagens recíprocas. E até para ter vantagens a oferecer é preciso muito desenvolvimento, o que parece não ser a preocupação dos políticos brasileiros, a quem incumbe promovê-lo.
FBT – O B dos BRICS tem vocação natural para basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve investir em inovação? Há diferentes tipos de lideranças empresariais para ambos os casos?
MN – O maior sucesso em termos de comércio internacional encontra-se nas chamadas "vantagens comparativas". O Brasil tem, sem dúvida, grandes possibilidades no mercado de commodities, mas se não se desenvolver também em ciência e tecnologia, vai ficar para trás, na medida em que até mesmo a produção de commodities exige a presença de profissionais altamente especializados, o que somente se consegue mediante o estímulo à educação de alto nível, com especialização em inovações científicas e tecnológicas.
FBT – O Brasil já foi apelidado de um "BRIC lento". A Sra. concorda?
MN – Não há como discordar dessa afirmativa.
FBT – Qual a razão em discordar?
MN – Por questões das mais variadas, que nem caberiam neste espaço tão curto, nos tornamos muito lentos e, em termos de política externa, por exemplo, colocamos nossa prioridade em torno de países que estão ainda mais atrasados do que nós, ao invés de nos unirmos àqueles que nos serviriam de exemplo.
FBT – Mas, a economia do País não progrediu?
MN – Embora o aumento da economia nacional seja inegável, ele decorre muito mais da "festa" que o mundo vivenciou durante os últimos anos do que a qualquer outra ação do Estado brasileiro para dar um passo à frente em termos de desenvolvimento.
FBT – Que bibliografia a Sra. recomendaria relativamente ao tema da “Liderança no Brasil no Contexto dos BRICS”?
MN – Há muitos autores brilhantes, embora a maioria deles não tenha suas obras normalmente publicadas no Brasil, sendo raro encontrá-las.
FBT – O que recomendaria?
MN – Recomendo fortemente o livros "Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano" (de três autores latino-americanos), "O Caminho da Servidão", de Hayek, "A Rebelião das Massas", de Ortega y Gasset, afora os maravilhosos artigos de Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, entre tantos outros.
Votos finais.
FBT – Algo mais que queira acrescentar?
MN – Faço votos de que o FORTE 2008 sirva de incentivo para que os jovens brasileiros se lancem ao desenvolvimento de suas potencialidades, buscando, principalmente fora do currículo escolar oficial, as fontes para a obtenção do conhecimento e, conseqüentemente, do espírito crítico, indispensável para quem deseja entender melhor o mundo à nossa volta.
FBT – Seu recado final?
MN – Faço votos, ainda, de que o empresariado brasileiro assuma um posicionamento mais firme com relação às políticas adotadas no País, lutando pela preservação da propriedade privada, da liberdade individual e do desenvolvimento da nação.
Inscrições gratuitas para o FORTE 2008:
forte2008@febratel.org.br ou pelo telefone (21) 2541-4848.
