Entrevista com Marcelo de Oliveira Marques, do Inatel, um dos palestrantes do FORTE 2008, da FEBRATEL

A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – promove, no dia 18 de agosto, em São Paulo, a edição 2008 do Fórum de Relações do Trabalho em Telecomunicações, com o tema "Liderança Empresarial do Brasil e os BRICS". Na qualidade de fórum, e pela excelência dos debatedores, o evento promete um debate ativo sobre a contemporaneidade. Aqui, entrevista com Marcelo de Oliveira Marques, pró-diretor de Desenvolvimento de Tecnologias e Inovação da Fundação Inatel – Instituto Nacional de Telecomunicações.
O professor universitário Marcelo de Oliveira Marques é o atual pró-diretor de Desenvolvimento de Tecnologias e Inovação do Inatel, onde se graduou. Sua carreira acadêmica inclui pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Possui extensa experiência na interação entre a empresa e a academia, onde vem atuando há mais de 15 anos. É diretor do Inatel Competence Center, um centro de excelência na transferência de conhecimento e tecnologia ao mercado, relacionado à educação continuada, projetos de cooperação mútua em pesquisa, desenvolvimento e inovação e consultoria.
Fundado em 1965, o Instituto Nacional de Telecomunicações, localizado em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, é o Vale da Eletrônica do Brasil. O Inatel dá formação nas áreas de Engenharia Elétrica, Eletrônica e Telecomunicações, Computação, Redes e Sistemas, Biomédica e TV Digital. Seu campus cobre 75 mil m2 e inclui laboratórios modernos cuja produção é apresentada em congressos nacionais e internacionais. Sua área de desenvolvimento de software é da mais alta certificação tecnológica. O Inatel Competence Center mantém parcerias com Motorola do Brasil, Ericsson Telecomunicações, Benchmark Electronics e Nortel Networks. O Inatel mantém intercâmbio tecnológico com mais de 70 países e contribui para projetar o "B" nos BRICS.
A sigla BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa. A entrevista com o professor Marcelo de Oliveira Marques foi realizada por e-mail. Na edição desse material, certas perguntas foram desmembradas visando dar uma dinâmica maior ao texto. Mas, o conteúdo das respostas é exatamente o que por nós foi recebido.
A seguir, a entrevista com Marcelo de Oliveira Marques:
FEBRATEL – Em que consiste a liderança empresarial? É a liderança dos empresários perante a sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas?
Marcelo Marques – Acredito que as duas formas de liderança são necessárias e, fundamentalmente, devem ser exercidas de forma a proporcionar, seja aos colaboradores de uma empresa, seja à sociedade, o direcionamento necessário e as condições adequadas para atingir os resultados esperados.
FBT – Conte-nos mais sobre o tema.
MM – E não estou falando apenas dos resultados econômicos ou financeiros. A liderança empresarial deve também possibilitar o crescimento pessoal e profissional de seus colaboradores, bem como criar condições para que os resultados obtidos no campo empresarial sejam repassados à sociedade, participando efetivamente e amplamente da construção de uma sociedade menos desigual e mais justa.
FBT – A liderança empresarial é um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia) ou há diferenças de lideranças entre eles?
MM – A liderança empresarial é um dos principais fatores para o sucesso de qualquer país. Principalmente daqueles que ainda se encontram em um estágio de desenvolvimento abaixo do razoável, como é o caso dos BRICS.
FBT – Qual o papel que deve desempenhar a liderança empresarial?
MM – A liderança empresarial pode e deve assumir a interlocução com as demais frentes da sociedade organizada e com o Governo, de forma a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento social e econômico do País. O próprio Forte 2008 é um evento que irá suscitar na sociedade a discussão sobre o futuro de nosso País e os caminhos para se chegar lá.
Diferença entre os BRICS.
FBT – Muito obrigado quanto ao FORTE 2008. Mas, quanto às diferenças entre os BRICS?
MM – Quanto às diferenças das lideranças entre os BRICS, acredito que estas são decorrentes das peculiaridades culturais e sociais de cada país.
FBT – A Índia?
MM – A Índia é um claro exemplo de como as diferenças culturais podem influenciar na liderança. Apesar de inserida em um sistema democrático há décadas e de experimentar um rápido desenvolvimento nos últimos anos, as diversas tentativas de eliminar ou, pelo menos, amenizar os problemas que o sistema de castas acarreta não têm obtido os resultados esperados.
FBT – Quer dizer que nem tudo por lá são flores?
MM – No meu entender, a sociedade indiana ainda contém muita segregação, na medida em que os membros das castas mais altas ocupam posições mais privilegiadas na hierarquia das empresas e os de castas mais baixas são sempre relegados a exercer atividades mais simples. Desta forma, fica difícil imaginar que o processo de liderança de pessoas na Índia não esteja fortemente, e negativamente, influenciado pelas componentes de intimidação e subserviência, uma condição inimaginável em outras democracias.
FBT – Os outros BRICS?
MM – O mesmo ocorre com outros integrantes do BRICS, na medida em que na China, por exemplo, a grande maioria da população vive em absoluta condição de subserviência ao Estado. Na Rússia, a coisa também não é diferente. Existe uma minoria abastada que vive na riqueza, no luxo e que tem acesso às modernidades da tecnologia, e uma maioria reprimida, muitas vezes perseguida e relegada ao proletariado.
Liderança, empresas e BRICS.
FBT – Se citarmos empresas pequena, média ou grande, há alguma diferença entre elas para o tema do FORTE 2008, "Liderança Empresarial do Brasil no Contexto do BRICS"?
MM – Não acredito que haja diferenças, embora os desafios a serem vencidos em empresas de portes distintos possam ser mais ou menos complexos, exigindo um maior ou menor nível de comprometimento do líder com os seus liderados.
FBT – O que deve ser a liderança?
MM – A liderança deve perseguir, essencialmente, a obtenção de resultados para os acionistas ou para os proprietários, para os seus colaboradores, para a sociedade e para os seus clientes. A consecução deste objetivo é comum a qualquer empresa, independentemente do seu porte.
FBT – Se citarmos empresa multinacional e empresa nacional, há diferença entre elas para o tema do FORTE 2008, "Liderança Empresarial do Brasil no Contexto dos BRICS"?
MM – Aqui, mais uma vez, o fator cultural deve ser considerado. Não são poucos os exemplos que vemos, a cada dia, sobre as dificuldades de empresas multinacionais se adaptarem à realidade de outro país que não o de origem.
FBT – Dê um exemplo concreto?
MM – Vejamos o exemplo de algumas empresas de TI que se instalaram em nosso País, nos últimos anos. Em um primeiro momento, trouxeram diversos executivos expatriados para dirigir o empreendimento, acreditando que a contratação de quadros técnicos local era, por si só, condição suficiente para que se conseguisse reproduzir, no Brasil, o sucesso experimentado em seu país de origem.
FBT – Já não é mais assim?
MM – Hoje, elas já perceberam que devem incorporar à sua direção – e estão fazendo isto rapidamente – profissionais que entendam a realidade brasileira, tanto no aspecto empresarial quanto no sociocultural brasileiro, de uma forma mais abrangente.
Presença e atuação do Estado.
FBT – Mudando de assunto. Qual sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto em perspectiva histórica?
MM – Os sindicatos assumem um papel importante na defesa dos direitos e dos interesses de seus associados. Porém, a decisão de se associar ou não, das empresas ou dos trabalhadores, deve estar relacionada diretamente aos benefícios, benefício próprio ou para a categoria, que esta associação possa trazer.
FBT – O modelo precisaria, então, ser repensado?
MM– De certa maneira, sim. O modelo do imposto/contribuição sindical compulsória precisa ser repensado, para que apareça um novo tipo de sindicalismo. Um sindicalismo que entenda o seu papel de defensor dos interesses de uma categoria, mas que, também, ofereça serviços que atendam às demandas daqueles que representa, criando oportunidades concretas de desenvolvimento para os seus associados, sem perder de vista os interesses da sociedade como um todo.
FBT – No contexto dos BRICS, como o Sr. percebe a presença e a atuação do Estado?
MM– Todos os BRICS têm experimentado uma forte participação do Estado em sua economia. Esta participação, por motivos diversos e com conseqüências diversas, não tem sido traduzida em um adequado desenvolvimento social e econômico. Dados disponibilizados pelas Nações Unidas mostram que os BRICS encontram-se entre aqueles com as piores distribuições de renda e com maiores participações da população abaixo da linha de pobreza.
FBT – Repensar o papel do Estado?
MM – Acho que sim. O papel do Estado e a sua ação para a promoção do interesse público devem ser repensados, debatidos permanentemente na sociedade de forma a assegurar que os direitos de todo cidadão a uma escola de qualidade, a um sistema de saúde digno e a uma sociedade segura – direitos básicos, por sinal – sejam garantidos.
FBT – E as lideranças empresarias?
MM – Da mesma forma, o Estado e as lideranças empresariais devem se unir para criar mecanismos que permitam que os avanços tecnológicos e econômicos, percebidos pelas camadas sociais mais altas, cheguem às classes menos favorecidas.
O cenário internacional.
FBT – O Sr. acha que os BRICS competem ou se aliam no cenário internacional?
MM – As alianças entre os BRICS sempre existirão em função das conveniências de cada país ou do próprio grupo.
FBT – Então, não haverá competição entre os BRICS?
MM– A competição entre os BRICS por novos mercados sempre existirá.
FBT – Poderia exemplificar?
MM – A disputa pelo mercado de offshoring de serviços de TI é um bom exemplo desta competição muitas vezes desleal entre os BRICS. Por exemplo, as vantagens estruturais competitivas que o Brasil possui, para o oferecimento destes serviços aos dois maiores mercados demandantes (EUA e União Européia), tais como afinidade cultural, fuso horário compatível e baixo risco geopolítico, são constantemente superadas pelo baixo custo da mão-de-obra chinesa.
FBT – O B dos BRICS tem vocação natural para basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve investir em inovação? Há diferentes tipos de lideranças empresariais para ambos os casos?
MM – A vasta extensão territorial de nosso País, rica em inúmeros recursos naturais, bem como as grandes faixas de terra contíguas e propícias para a agricultura e pecuária, possibilitarão por muito tempo uma grande expressão das commodities na nossa matriz de geração de riquezas.
FBT – É um sucesso que veio sozinho, tal como se fosse uma geração expontânea?
MM – Não. Devemos lembrar que grande parte do sucesso colhido hoje pela agropecuária brasileira é fruto de um trabalho forte e ininterrupto de um de nossos maiores centros de pesquisa e inovação, a Embrapa.
O Brasil da inovação.
FBT – Qual a importância da inovação?
MM – O posicionamento do Brasil no contexto dos BRICS não deve apenas considerar a sua vocação natural.
FBT – Como assim?
MM– A extração de petróleo em águas profundas, os aviões à jato da Embraer, os veículos flex-fuel, o Sistema de TV Digital Brasileiro (uma inovação sobre o padrão japonês) são exemplos do que a inovação pode fazer por este País.
FBT – Comente sobre a atividade de pesquisa e desenvolvimento e inovação no País.
MM – O Brasil possui, hoje, um sistema maduro de PD&I, e cada vez mais consciente da necessidade de transformar em inovação as pesquisas realizadas, que pode fortalecer sua posição em diversas outras áreas.
FBT – Algum referencial?
MM – Sobre esse ponto, se deve fazer menção aos trabalhos desenvolvidos pelo MC&T (Ministério da Ciência e Tecnologia) na promoção da inovação nos últimos anos, em especial através da participação da Finep no fomento à inovação nas empresas.
FBT – E as tecnologias de ponta?
MM – Da mesma forma, a criação do Sibratec (Sistemas Brasileiro de Tecnologia), que possibilitará a criação Redes de Centros Inovação, Extensão e Serviços Tecnológicos entre as ICTIs, e a reedição dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia criarão um ambiente favorável para fortalecer o setor brasileiro ligado às tecnologias de ponta e, indiscutivelmente, permitirão ao Brasil se posicionar como um ator de expressão dentro dos BRICS no segmento de produtos e serviços com alto valor agregado.
Brasil, BRIC lento?
FBT – O Brasil já foi apelidado de um "BRIC lento", o Sr. concorda?
MM – A leitura dos indicadores de crescimento de nossa economia, infelizmente, não me permite discordar. Apesar do crescimento do PIB do País, no primeiro trimestre deste ano, ter sido superior ao de alguns países desenvolvidos, o Brasil ainda continua com um crescimento menor que o de outros países emergentes. Porém, apenas a análise do crescimento do PIB, análise absoluta ou em relação a outros países emergentes, pode esconder um cenário ainda mais cruel, que é o da inconsistência do crescimento.
FBT – Referir-se somente ao crescimento do PIB é suficiente?
MM – A questão que se apresenta é se estamos realmente criando um ambiente que possibilite o desenvolvimento de nossas empresas e a conseqüente prosperidade para a nossa população.
FBT – Dados?
MM – Essa questão fica mais clara se examinarmos os resultados do Brasil no Anuário de Competitividade Mundial (WCY), preparado pelo IMD. Apesar de ter apresentado um ganho de seis posições na classificação geral, o Brasil obteve a sua pior posição, no período de 2003 a 2006, em um dos pilares da análise, que é o da infra-estrutura, tendo piorado a sua posição em quatro dos cinco subfatores analisados.
FBT – Qual a bibliografia nacional que recomendaria sobre o tema de liderança empresarial do Brasil e os BRICS?
MM – Acredito que uma busca rápida em centros de excelência em gestão como a Fundação Dom Cabral e a Getúlio Vargas possibilite ao interessado obter estudos atualizados sobre os BRICS.
Inscrições gratuitas para o FORTE 2008:
forte2008@febratel.org.br ou pelo telefone (21) 2541-4848.
