Embaixador Marcílio Marques Moreira trata da crise econômica mundial no Instituto dos Advogados do Brasil – II

Por João Carlos Fonseca - 01 de dezembro de 2008
Foto (E-D) de M. Marques Moreira, Nelson Paes Leme e M. Thereza C. Lobo

No salão de conferência do IAB, no Rio de Janeiro, em 26 novembro último, o embaixador e ex-ministro da Fazenda (Governo Collor) Marcílio Marques Moreira analisou a atual crise econômica mundial e os reflexos para o Brasil. Nesta segunda parte, os aspectos do pronunciamento em que o embaixador trata do Brasil e o currículo do palestrante.

Detalhando a crise

Marcílio Marques Moreira explicou que a existência de maior crédito imobiliário nos EUA incentivou a demanda e fez subir os preços dos imóveis naquele país. Nos casos de inadimplência, o credor, ao retomar o imóvel, encontrou seu valor depreciado – pela falta de compradores – e que já não cobria mais o empréstimo original. A queda de preço do "colateral" (garantias vinculadas a um empréstimo) e do "sub-prime" (tomador de empréstimo de segunda linha) fez explodir a crise global.

Tal abalo global foi qualificado pelo palestrante como uma desordem econômica. Os EUA absorveram cerca de 80% da poupança mundial disponível, e o déficit norte-americano chegou a representar cerca de 6% do seu PIB. Por outro lado, a China transformou esse déficit em liquidez.

China e EUA passaram a agir como dois embriagados. Os EUA consumindo loucamente. A China, com uma taxa de câmbio artificial, exportando para os EUA e comprando títulos norte-americanos (inclusive da Fannie May e Freddy Mac). No tabuleiro da geopolítica, os EUA favoreceram a China – que a fez entrar para a Organização Mundial do Comércio OMC –, como um meio de enfraquecer a Rússia.

Sobre o crescimento da China de 12%, ele deve cair para 7,5% (previsão do Banco Mundial) e talvez para 6% e até mesmo 5,5%. A legitimidade do Governo chinês é baseada no seu desempenho econômico. Pequenas firmas chinesas já estão falindo e ocorrem falhas graves na produção industrial (brinquedos, leite, remédios).

O palestrante disse que estamos vivendo a pior crise econômica mundial dos últimos 50 ou 60 anos. No caso do Brasil, assim como o País se beneficiou dos anos de aquecimento global da economia, agora passará a se sentir mais desconfortável com a sua desaceleração.

Marcílio Moreira: e o Brasil?

Advertiu Marcílio Marques Moreira que "acreditamos que a crise seria cambial e o País, conseqüentemente, acumulou reservas. Erramos. A crise no Brasil vai ser fiscal e não cambial. O sistema tributário brasileiro é procíclico e depende do estado da economia".

Distinta de uma reforma tributária, o Brasil precisa sobretudo de uma reforma fiscal. Basicamente, consiste em controlar e priorizar o gasto público. Aqui, o gasto público tem suas ineficiências cobertas com acréscimos na tributação. O governo brasileiro vem optando por aumentar seus gastos fixos, ao invés de investir. Os gastos em educação, saúde e saneamento não podem ficar aguardando as futuras receitas do "pré-sal".

O discurso governamental de "consumir, consumir e mais consumir", para debelar a crise, é ver o problema sob o ângulo errado. A crise atual não é por falta de demanda e sim vem de fora. Nem é uma crise de falta de crédito (este passou de 33% para 40% do PIB em 12 meses). O Brasil, historicamente, é bom para resolver crises, mas não tão bom para saber aproveitar as oportunidades. A crise para nós pode significar um "freio de arrumação".

A crise é global e os governos do países têm injetado vultuosos recursos para manter a credibilidade do sistema financeiro. O sistema bancário brasileiro é conservador e os bancos estão bem capitalizados. Nas empresas privadas, a crise ainda não bateu plenamente.

O Brasil acumulou reservas em moeda internacional, hoje em US$ 200 bilhões (já foram de US$ 220 bilhões), para formar um colchão contra uma crise cambial e não para investir. A queda das reservas preocupa (US$ 50 bilhões estão compromissados).

Se autoproclamando liberal (e não um neoliberal), declarou o palestrante não apoiar o Estado produtor e sim o Estado regulador. Classificou George Bush, Ronald Reagan e Margareth Thatcher como partidários do "capitalismo fundamentalista". Citou o autor Frank Knight – Risco, Incerteza e Lucro (1921) –, para dizer que o capitalismo é um risco calculado e para isto existem seguros. No caso do Brasil, o palestrante criticou a existência do Estado burocrático, da cultura da transgressão e da economia informal.

O capitalismo sempre será especulativo, bem como uma grande máquina de produção da riqueza. Sempre será um olhar para frente através de um espelho ("especulare"). Ser capitalista é avaliar o risco. Este pode assumir a forma do grande risco (e do grande ganho), como acontece com a roleta russa (o ganho é a vida) ou o risco pequeno em grande volumes, como aconteceu com a bolha imobiliária.

E como será o futuro? Tal como na época das grandes navegações, é difícil predizer o resultado. Ninguém, porém, vai se beneficiar com a crise. A tese do descolamento – o Brasil é uma ilha de tranqüilidade – é equivocada. Num mundo globalizado, há que ser solidário. Na Grande Depressão ocorreu o protecionismo corporativista, que prolongou a crise por 15 anos.

O momento, hoje, é muito difícil. As velocidades com que as coisa acontecem são diferentes. O tempo do mundo econômico e do mundo político é distinto. Hoje, se está entrando em um novo tempo. É um mundo novo com a China surgindo como um país emergente. O novo, em geopolítica, sempre traz consigo desconforto e fricção. Japão e Alemanha que perderam a II Guerra Mundial vão precisar ocupar outra posição na Organização das Nações Unidas.

E para o Brasil? Será preciso um "aggiornamento" (termo utilizado no Concílio Vaticano II, 1962-1965, com os papas João XXIII e Paulo VI, e significando atualização) para que o País fique em dia, recomendou com sabedoria o ex-diplomata, banqueiro, professor e servidor público Marcílio Marques Moreira, ao término de sua palestra, uma verdadeira aula magna sobre a crise mundial e seus desdobramentos.

Um currículo respeitável

Marcílio Marques Moreira, de 77 anos, carioca, filho de diplomatas, cursou o primário e o secundário em Viena, Budapeste, Rio de Janeiro e Berna. Em 1954, completou o curso de Preparação do Instituto Rio Branco e, três anos depois, o de bacharel em Direito pela antiga UEG (hoje Uerj). Em 1963, conclui o mestrado em Ciência Política pela Georgetown University, em Washington D.C. (USA), com a "premonitória" tese "Aspectos Sociais e Políticos do Desenvolvimento". Foi professor universitário (1956) na Cândido Mendes (Direito Internaconal), na PUC-Rio (1964) (Ciência Política) e na Uerj (1975) (Centro de Ciências Sociais).

Durante quatro anos (1957/1961), foi secretário da Embaixada do Brasil em Washington, onde exerceu as funções de diretor temporário do FMI e do BIRD. Foi assessor do ministro da Fazenda San Tiago Dantas e (1963/1965) e assessor-geral de operações internacionais do BNDE, hoje BNDES. No Governo Negrão de Lima (Guanabara), foi vice-presidente da Copeg (desenvolvimento) e presidente da Codesco (1968), que criou para a urbanização de favelas. Por 14 anos, foi (1969-1983) vice-presidente do Unibanco, quando passou a integrar o Conselho de Administração do mesmo grupo.

Por cinco anos (1986/1991), foi embaixador do Brasil junto ao governo dos EUA. Foi ministro da Economia, Fazenda e Planejamento (1991/1992) no Governo Collor. Na ocasião, juntamente com o ministro da Justiça, Célio Borja, garantiu a seqüência pacífica do Governo, marcado pelo processo de impedimento pelo Congresso e pela renúncia do presidente da República. De 1993/1995, foi subsecretário de Políticas Públicas da Prefeitura do Rio de Janeiro. Presidiu a Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e o Conselho de Ética Pública da Presidência da República, de onde se desligou em fevereiro de 2008. Autor de diversos livros, é membro honorário de inúmeras instituições públicas e privadas no Brasil e no exterior.

Em julho de 2006, Marcílio Marques Moreira esteve com o economista Nouriel Roubini, da Stern Business School da Universidade de Nova York. O professor Roubini adquiriu súbita notoriedade por ter previsto com antecedência a crise que afinal aconteceu.

Para o acervo do IAB, Marcílio Marques Moreira deixou seu livro "Diplomacia, Política e Finanças – De JK a Collor, 40 anos de História"; e também a "Cultura das Transgressões no Brasil , Lições de História", uma coletânea de textos sob sua coordenação, juntamente com o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

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